quarta-feira, setembro 13, 2006

O Povo da Deusa Dana

A viagem de Bran, filho de Febal
Um dia, quando passeava sozinho junto de sua casa, Bran, rei da Irlanda, ouviu uma música atrás de si. Por mais que olhasse para trás, não conseguia perceber de onde vinha esse som encantatório, que teimava em persegui-lo. A sua doce melodia era tal que Bran acabou por cair num sono profundo. Quando acordou, viu junto de si um galho de prata coberto de flores tão brancas que era impossível distinguir entre ambos. Bran levou o galho para a sua casa real onde lhe surgiu uma mulher vestida com estranhas roupas, que recitou perante toda a corte um longo poema. Neste, afirmou ter sido ela a portadora do ramo de prata de uma macieira na ilha de Emne. Nesta ilha bela e distante, na qual cintilavam os cavalos-marinhos de Manannán Mac Lir, a população entregava-se a jogos na Planície da Prata Branca no meio de muita música e muita alegria. Aí desconhecia-se a dor, o sofrimento, a maldade, a doença e até a morte. Encontrapartida, tudo nela era belo e perene : a sua música era a mais melodiosa, os seus alimentos eram os mais apetitosos, a sua bebida, a mais saborosa, os seus tesouros eram os maus riscos. Por isso , Emne era única e imcomparável.
Ao terminar a sua canção, a mulher pegou no ramo de prata e desapareceu sem que ninguém soubesse para onde tinha ido. Mas o fefeito da sua canção em Bran levou-o a lançar-se ao mar acompanhado pelos seus três irmãos adoptivos e por vinte e sete dos seus mais bravos guerreiros, de modo a procurar a ilha encantada. Após dois dias e duas noites a navegar no oceano, Bran viu um homem a aproximar-se dentro de um carro sobre as ondas. Este cantou-lhe também uma canção sobre as terras encantadas do Outro Mundo e identificou-se como Manannán, filho de Lir. Disse ainda a Bran que era seu destino viajar até à Irlanda onde geraria um filho a quem daria o nome de Mongán. O Senhor dos Mres despediu-se, por fim, com outra canção.
Algum tempo depois de se afastar de Manannán, Bran avistou enfim outra ilha. Aproximou-se dela rodeando-a com o seu barco, e verificou, com espanto, que todos os seus habitantes riam com agrado enquanto o observavam, sem que, contudo, lhe dirigissem a palavra. Bran enviou um dos seus homens à ilha, mas este, uma vez em terra, adquiriu igualmente o mesmo comportamento estranho dos seus habitantes: ficou a olhar fixamente para os seus companheiros, rindo, sem pronunciar palavra. Como tal, Bran deixou-o aí, na ilha conhecida como Ilha da Alegria, e voltou a partir.
Passado um tempo, aproximou-se de outra ilha. Desta vez, era a Ilha das Mulheres. No porto, a sua líder deu-lhe asboas vindas e convidou-os a ir a terra. Mas, temendo aventurar-se na ilha desconhecida, Bran recusou o convite. A mulher recorreu então a um estratagema: atirou uma bola de londe em diracção ao rosto de Bran que a agarrou com a mão onde a bola ficou colada. Puxando pela outra ponta, a mulher fez o barco atravessar o porto, obrigando assim Bran e os seus homens e entrarem na ilha. Foram recebidos com camas quentes e boa comida, que nunca desaparecia dos pratos. Sem se aperceberem do passar do tempo, permaneceram na Ilha das Mulheres durante largas centenas de anos, até que Nechtan mac Collbrain começou a sentir saudades de casa, sentimento que logo se alargou a todos, que tentaram convencer Bran a voltar à Irlanda. A mulher avisou-os, porém, de que se partissem se arrependeriam, mas ainda assim decidiram partit. Ela disse-lhes então que deveriam levar com eles o companheiro que haviam deixado na Ilha da Alegria e, conhecendo o número de anos que haviam permanecido nos seus domínios, advertiu-os para não tocarem em solo irlandês.
Bran e os seus homens abandonaram a Ilha das Mulheres e viajarm por mar até chegarem à costa da Irlanda. Aí encontraram uma multidão reunida em Srub Brain. Quando lhe perguntaram quem era, Bran respondeu : «Sou Bran, filho de Febal».
«Não sabemos quem és, embora a "Viagem de Bran" seja uma das nossas histórias mais antigas», respondeu um dos irlandeses, para grande espanto de Bran e dos seus homens.
Nesse momento, Nechtan deciciu sair do barco, esquecendo-se dos avisos que lhe haviam sido feitos na Ilha das Mulheres, e tocou o solo da Irlanda com os pés. Transformou-se rapidamente num monte de cinzas como se estivesse como se estivesse estado vivo por muitas centenas de anos.
De dentro do seu barco, Bran contou aos irlandeses as suas aventuras desde o início até àquele momento. Gravou-as em galhos com Ogham e deitou-os ao mar. Partiu depois no seu barco com os seus companheiros para nunca mais ser visto, e pelo mar vagueia ainda, sem que ninguém saiba onde se encontra.

terça-feira, setembro 12, 2006

Contos do ciclo Heróico

As dores de Parto do Ulaid e os gémeos de Macha
Crunniuc, filho de Agnoman do Ulaid, vivia apenas com os seus dois filhos nas montanhas selvagens porque havia enviuvado. Um dia, quando se encontrava só, apareceu uma mulher que, sem lhe dizer quem era ou de onde vinha, se instalou em sua casa, a limpou e arrumou, como se sempre tivesse lá vivido. Nessa noite, dormiu com Crunniuc e com ele permaneceu durante muito tempo, trazendo-lhe prosperidade e riqueza. Entretanto, ia realizar-se na província uma grande feira por todos aguardada com expectativa. Crunniuc vestiu a sua melhor roupa e preparava-se para sair de casa, quando a sua nova e misteriosa esposa o avisou para não fazer afirmações precipitadas nem dizer nada de disparatado. Crunniuc respondeu-lhe que podia ficar descansada.
Quando o dia festivo terminou, o rei surgiu na sua carruagem puxada por belos cavalos, vencendo todos os jogos que se disputavam no recinto e assim causando espanto e admiração em todos os que o observavam.
«Não existe nada mais veloz do que aqueles cavalos» diziam.
«Existe sim», respondeu rapidamente Crunniuc,« a minha mulher é mais rápida e mais veloz».
Confrontados com tal afirmação, os participantes na feira decidiram levar Crunniuc à presença do rei que o desafiou a provar a verdade do que havia dito, caso contrário, mandá-lo-ia matar.
Quando a mulher de Crunniuc soube do sucedido ficou muito preocupada, pois estava grávida e prestes a dar à luz. Além disso, havia percebido que, se não provasse perante o rei e a população do Ulaid que o marido havia dito a verdade, ele morreria. Dirigiu-se então à feira onde começou a sentir as primeiras dores de parto.
«Por favor», disse a cada um dos Ulidian, «não me obriguem a prestar semelhante prova. Esperem que os meus filhos nasçam e aí eu demonstrarei que Crunniuc dizia a verdade, mas agora tenham compaixão por mim. Não nasceu cada um de vós de uma mulher no mesmo estado que eu?»
Porém, as suas palavras não tocaram o coração de nenhum dos Ulidian, que continuavam a exigir que provasse a afirmação precipitada do marido.
«Muito bem», disse então a mulher «Eu vou correr e serei mais rápida que os cavalos do rei. Mas, a partir de hoje, sofrerão dores bem maiores que as minhas e durante muito tempo»
«Como te chamas?» perguntou o rei.
«Chamo-me Macha e sou filha de Sainrith, filho de Imbath. Ouçam bem este nome porque tanto ele como o dos meus filhos marcarão esta zona para sempre.»
Cheia de dores lancinantes, Macha correu então contra os cavalos do rei, e venceu-os. No final da corrida, deu à luz dois gémeos - uma rapariga e um rapaz. A partir daí, essa zona ficou conhecida como Emuin Machae (Emain Macha) ou Os Gémeos de Macha.
No momento em que dava à luz, por entre gritos de dor, Macha disse aos Ulidian que todos aqueles que a ouvissem iriam sofrer as mesmas dores de parto durante cinco dias e quatro noites por nove gerações. Nesse período de tempo, todos na província ficariam tão débeis como uma mulher em trabalho de parto. Apenas a mulher e os filhos de Cuchulain, para além do próprio herói, escaparam à maldição.